Rilda estava bela no seu leito de morte. Finalmente seu rosto de porcelana transmitia paz. Talvez por não querer passar pela velhice, desistira da vida enquanto ainda era bonita, jovial e atraente. Depois de ver tanto sofrimento, Alexandra, a única filha, não sabia se o que sentia naquele momento era alívio ou dor. Jamais presenciara o instante da morte e, ao ver o último suspiro, entorpeceu-se. Lembrou-se do desejo da mãe que pedia que a envolvessem em um lençol de linho e fechassem o caixão; pensou em fazer aquele último desejo, mas logo descartou a possibilidade. Algumas horas antes, concordara com o médico que a única coisa a fazer era deixar que sua mãe dormisse para sempre. Chorou muito por autocomplacência, por pensar que iria perder uma parte de si. As duas haviam se despedido em um átimo de profundo amor dizendo apenas “eu te amo”.
Com trinta e poucos anos, Alexandra sentiu-se só. Nunca mais diria “mãe”. O comportamento de filha malcriada e birrenta também seria enterrado e ela assumiria a linha de frente. Viu-se caminhando no corredor do hospital, sem ninguém por perto, sentiu-se forte e mulher.
O dia amanheceu rapidamente, cinzento, triste, com uma chuva torrencial. As pessoas foram chegando, sinceras em seu pesar, agrupando-se por afinidades: parentes queridos, amigos do clube, o grupo das aulas de tango, os amigos de Alexandra e seu marido. Tanta gente amava aquela mulher alegre, dinâmica, sempre disposta e interessada. Muitos choraram sua morte. “Uma pena” - diziam. O câncer havia chegado sem avisar e, quando Rilda sentiu os primeiros sintomas, as metástases já haviam se espalhado por todo seu belo corpo. Enjôos, dores no estômago, uma cirurgia inútil, dois dias de UTI e não conseguira mais ficar de pé sozinha. Quando não pode sequer erguer a xícara de café com leite, entregou-se.
No cemitério, a chuva lavava com vontade as lápides, as capelas, os mausoléus e os mármores e bronzes. Os guarda-chuvas escuros perambulavam nas alamedas estreitas, as mesmas que Rilda percorrera tantas vezes para levar flores a seus mortos.
Ir ao cemitério era um ritual cumprido pelas três irmãs: Rilda, Vicenza e Íris. Sempre levavam Alexandra, pequena, para que se acostumasse e não tivesse medo; sua tarefa era repor as flores frescas no vaso. Lavavam a capela, trocavam as toalhinhas bordadas, rezavam, faziam o sinal da cruz e iam embora conversando em italiano. Alexandra, saltitante, contava anjinhos de pedra e fazia perguntas. Rilda dizia que depois que as três morressem ninguém mais iria cuidar da capela. Naquele tempo, o cemitério andava muito descuidado pela administração, era perigoso andar por lá. Todas ficaram horrorizadas quando souberam que violavam túmulos para procurar dentes de ouro nas ossadas e só acreditaram porque o fato ocorreu com os restos mortais de uma tia distante, pobre coitada. A menina ficou impressionada, tinha pesadelos no meio da noite e acordava gritando de medo.
Como era costume na família, só os homens foram ao enterro. Uma procissão de guarda-chuvas pretos, o genro, os sobrinhos e o neto segurando o caixão, a tristeza.
Alexandra chorou muito. Quando foi marcar a missa de sétimo dia na igreja em que a mãe freqüentava, acertou os detalhes, escolheu as músicas e descobriu que a missa individual custava praticamente o dobro da missa comunitária. Porém, a secretária na sacristia garantiu que para a alma da pessoa falecida o benefício era o mesmo. Se o benefício era o mesmo porque ter dois preços de missa? Enfim, fez o que sua mãe faria: optou pela missa individual, preencheu um cheque, incluindo os honorários do organista, e saiu. No dia marcado, a igreja estava repleta de pessoas profundamente consternadas. No silêncio entre uma música e outra, a dor da perda pesava no ar.
07/06/2009
05/06/2009
Cascuda...
… e asquerosa, lá estava ela parada no cano da torneira da pia. Era grande, repugnante, a desgraçada, com antenas duas vezes seu tamanho tateando o cano enferrujado. Suas asas pardas se entreabriam e fechavam em um movimento lento e nojento, parecia que ia voar.Zé pegou a vassoura, escorregou o pé para fora do chinelo, se abaixou e o empunhou como uma segunda arma de defesa.
E a barata lá, só mexendo as antenas. Zé optou pelo chinelo, desferiu um golpe certeiro e a bicha caiu de costas na pia. Ficou imóvel por uns segundos, mas depois começou a mexer as pernas tentando desvirar. Conseguiu! A chinelada não fez efeito e ela saiu lépida entrando atrás do quadrinho do Sagrado Coração de Jesus.
Zé largou a vassoura e foi procurar um inseticida. Derrubou tudo o que estava na prateleira, pegou o aerosol e mirou no quadro, apertando o pino como quem aperta o gatilho de uma arma assassina. O líquido formou um névoa e depois escorreu pelo quadro. “Agora eu matei!”, pensou ele.
Continuou sua rotina, limpou a sujeira, guardou a bagunça, lavou bem as mãos e disse bom dia a um freguês que acabava de entrar. Cafezinho carioca com espuma de leite, um copo de água sem gelo e um pão de queijo. Pão de queijo não tinha, foi pão de batata. Começaram a conversar sobre o calor, o trânsito, nada de mais. O sujeito era amável e Zé, que estava gostando do papo, serviu a água e em seguida colocou no balcão o café e o pão em um pratinho. O freguês começou a fazer perguntas sobre a coleção de xícaras de café, Zé se distraiu e, quando bateu o olho no balcão, viu a baratona em cima do pão de batata. Putz grila! Ficou sem ação.
O freguês, que estava de costas, continuou falando. E agora? Cadê a vassoura? Estava longe. E o chinelo? Era a sua chance. Sorrindo fez uma espécie de reverência, pegou o chinelo e tacou na barata por cima do ombro do freguês. Ela fugiu de novo. Filhadaputa! E agora ele havia ficado mal com o simpático cliente que provavelmente jamais voltaria a café.
[conto sobre a "angústia"]
E a barata lá, só mexendo as antenas. Zé optou pelo chinelo, desferiu um golpe certeiro e a bicha caiu de costas na pia. Ficou imóvel por uns segundos, mas depois começou a mexer as pernas tentando desvirar. Conseguiu! A chinelada não fez efeito e ela saiu lépida entrando atrás do quadrinho do Sagrado Coração de Jesus.
Zé largou a vassoura e foi procurar um inseticida. Derrubou tudo o que estava na prateleira, pegou o aerosol e mirou no quadro, apertando o pino como quem aperta o gatilho de uma arma assassina. O líquido formou um névoa e depois escorreu pelo quadro. “Agora eu matei!”, pensou ele.
Continuou sua rotina, limpou a sujeira, guardou a bagunça, lavou bem as mãos e disse bom dia a um freguês que acabava de entrar. Cafezinho carioca com espuma de leite, um copo de água sem gelo e um pão de queijo. Pão de queijo não tinha, foi pão de batata. Começaram a conversar sobre o calor, o trânsito, nada de mais. O sujeito era amável e Zé, que estava gostando do papo, serviu a água e em seguida colocou no balcão o café e o pão em um pratinho. O freguês começou a fazer perguntas sobre a coleção de xícaras de café, Zé se distraiu e, quando bateu o olho no balcão, viu a baratona em cima do pão de batata. Putz grila! Ficou sem ação.
O freguês, que estava de costas, continuou falando. E agora? Cadê a vassoura? Estava longe. E o chinelo? Era a sua chance. Sorrindo fez uma espécie de reverência, pegou o chinelo e tacou na barata por cima do ombro do freguês. Ela fugiu de novo. Filhadaputa! E agora ele havia ficado mal com o simpático cliente que provavelmente jamais voltaria a café.
[conto sobre a "angústia"]
A Carta
Meu pai,
Lembro bem do dia em que o senhor foi embora naquele barco sem dizer palavra, sem nem sequer me olhar nos olhos da gente. Por respeito, e por minha mãe, coitada, que ficou parada feito uma estátua de pau, eu também não disse nada. Meu irmão ainda falou, o senhor olhou para ele, bem nos olhos e eu fiquei ali, sem merecer um olhar. Por anos pensei o que foi que eu fiz.
Nunca entendi, ninguém entendeu.
O tempo foi passando, a gente foi crescendo, a mãe envelhecendo e aquele vazio no meio da casa. Aprendi a viver calada, também. Com tanta coisa que passava pela minha cabeça, tinha dia que parecia que aquela vida não existia, que eu não exitia. Quem não existia mais era o homem de palavra, que cuidava da gente, que trazia comida e dizia como as coisas tinham de ser. O senhor não pensou na gente, pai. Virou um morto sem ter morrido, sempre presente, sem estar lá. E eu que sempre achei que um dia ia voltar.
Eu não arrumava namorado, tinha medo que os homens fugissem de mim. Aí a mãe disse que se eu não resolvesse, depois não ia dar mais, que filho a gente tem logo, enquanto é forte, então eu casei. Moço bom, trabalhador, gosta de mim, mas eu não gosto dele. Respeito, mas não sinto amor, não sei gostar. Desde o primeiro dia, acordo antes que ele com medo de abrir os olhos e ele não estar lá. Mas ele sempre está; acorda logo depois, tomamos café, ele conversa e eu escuto.
Embarriguei, meu marido gostou de ter um menino homem. Quase morri para ele nascer. Quando passou o resguardo, a gente foi na beira do rio mostrar o menino para o senhor. Chamamos, eu levantei ele para o céu, que era para o rio poder ver, para o senhor poder ver, mas o senhor não viu. Nesse dia, pai, meu coração doeu, senti uma coisa como se uma vara fina tivesse me atravessado o peito e eu me atirei no rio com o menino no colo, o pobrezinho nem chorou.
A correnteza levava a gente, estava forte aquele dia e eu, sem largar o menino, fui parar na margem, minha roupa engastalhou nos galhos e meu marido salvou a gente. O menino tremia, boquinha roxa, quietinho. Nunca mais acreditei que um dia o senhor existiu.
Escrevo essa carta porque seu fantasma ainda me atormenta e se o senhor é de palavra, eu sou de escrita. Vou colocar essa carta no rio, sei que o senhor vai ler. Vou para longe, nunca mais eu volto, nunca mais olho para esse rio.
[Inspirado no conto A Terceira Margem, Guimarães Rosa]
Lembro bem do dia em que o senhor foi embora naquele barco sem dizer palavra, sem nem sequer me olhar nos olhos da gente. Por respeito, e por minha mãe, coitada, que ficou parada feito uma estátua de pau, eu também não disse nada. Meu irmão ainda falou, o senhor olhou para ele, bem nos olhos e eu fiquei ali, sem merecer um olhar. Por anos pensei o que foi que eu fiz.
Nunca entendi, ninguém entendeu.
O tempo foi passando, a gente foi crescendo, a mãe envelhecendo e aquele vazio no meio da casa. Aprendi a viver calada, também. Com tanta coisa que passava pela minha cabeça, tinha dia que parecia que aquela vida não existia, que eu não exitia. Quem não existia mais era o homem de palavra, que cuidava da gente, que trazia comida e dizia como as coisas tinham de ser. O senhor não pensou na gente, pai. Virou um morto sem ter morrido, sempre presente, sem estar lá. E eu que sempre achei que um dia ia voltar.
Eu não arrumava namorado, tinha medo que os homens fugissem de mim. Aí a mãe disse que se eu não resolvesse, depois não ia dar mais, que filho a gente tem logo, enquanto é forte, então eu casei. Moço bom, trabalhador, gosta de mim, mas eu não gosto dele. Respeito, mas não sinto amor, não sei gostar. Desde o primeiro dia, acordo antes que ele com medo de abrir os olhos e ele não estar lá. Mas ele sempre está; acorda logo depois, tomamos café, ele conversa e eu escuto.
Embarriguei, meu marido gostou de ter um menino homem. Quase morri para ele nascer. Quando passou o resguardo, a gente foi na beira do rio mostrar o menino para o senhor. Chamamos, eu levantei ele para o céu, que era para o rio poder ver, para o senhor poder ver, mas o senhor não viu. Nesse dia, pai, meu coração doeu, senti uma coisa como se uma vara fina tivesse me atravessado o peito e eu me atirei no rio com o menino no colo, o pobrezinho nem chorou.
A correnteza levava a gente, estava forte aquele dia e eu, sem largar o menino, fui parar na margem, minha roupa engastalhou nos galhos e meu marido salvou a gente. O menino tremia, boquinha roxa, quietinho. Nunca mais acreditei que um dia o senhor existiu.
Escrevo essa carta porque seu fantasma ainda me atormenta e se o senhor é de palavra, eu sou de escrita. Vou colocar essa carta no rio, sei que o senhor vai ler. Vou para longe, nunca mais eu volto, nunca mais olho para esse rio.
[Inspirado no conto A Terceira Margem, Guimarães Rosa]
Torcida organizada: ora vejam!
Quando eu digo que não me interesso mais por esportes as pessoas ficam chocadas. Esporte é tão saudável, tão importante para a formação de uma criança! Será?
Como poderia me interessar por essa coisa que mais parece um jogo tirado de filme de ficção científica? Os atletas viram humanóides, cheios de tecnologia e química para disputar milésimos de segundos em nome da logomarca de uma grande corporação. Os jogadores de futebol são um saco de dinheiro ambulante, a correr em uma arena verde e retangular, tentando estratégias estudadas por um técnico, que nem sempre sabe o que está fazendo. Ganham tanto dinheiro e todos fazem a mesma coisa: uma mulher loira (geralmente casam em castelos), uma casa enorme cafona, com tv de plasma, mesa de bilhar, churrasqueria e todos os intrumentos musicais possíveis para um bom pagode.
Nada contra. Cada um sabe de si. Eu só não consigo me interessar, que dirá gostar.
E as torcidas? O que é aquilo, meu Deus? Vandalismo, assassinato, histeria em massa? os moradores dos bairros próximos aos estádios passam a morar no meio de um campo de guerra, em dia de jogo.
Nas guerras de verdade, os soldados são treinados desde pequenos, com jogos eletrônicos, a atirar para matar de brincadeira, . Depois, é apenas uma questão do preço do brinquedo. A mil quilômetros de distância, quem sente que está dizimando uma aldeia inteira?
Ao ver o comportamento das tais torcidas organizadas, tenho certeza de que o homem sente falta da carnificina de verdade, do confronto homem a homem, corpo a corpo. Aí, dá no que dá. Um horror!
Como poderia me interessar por essa coisa que mais parece um jogo tirado de filme de ficção científica? Os atletas viram humanóides, cheios de tecnologia e química para disputar milésimos de segundos em nome da logomarca de uma grande corporação. Os jogadores de futebol são um saco de dinheiro ambulante, a correr em uma arena verde e retangular, tentando estratégias estudadas por um técnico, que nem sempre sabe o que está fazendo. Ganham tanto dinheiro e todos fazem a mesma coisa: uma mulher loira (geralmente casam em castelos), uma casa enorme cafona, com tv de plasma, mesa de bilhar, churrasqueria e todos os intrumentos musicais possíveis para um bom pagode.
Nada contra. Cada um sabe de si. Eu só não consigo me interessar, que dirá gostar.
E as torcidas? O que é aquilo, meu Deus? Vandalismo, assassinato, histeria em massa? os moradores dos bairros próximos aos estádios passam a morar no meio de um campo de guerra, em dia de jogo.
Nas guerras de verdade, os soldados são treinados desde pequenos, com jogos eletrônicos, a atirar para matar de brincadeira, . Depois, é apenas uma questão do preço do brinquedo. A mil quilômetros de distância, quem sente que está dizimando uma aldeia inteira?
Ao ver o comportamento das tais torcidas organizadas, tenho certeza de que o homem sente falta da carnificina de verdade, do confronto homem a homem, corpo a corpo. Aí, dá no que dá. Um horror!
21/05/2009
Analfabetos no Metrô de São Paulo
VAI ESPERAR O PRÓXIMO TREM?
ENTÃO DÊ PASSAGEM PARA QUEM VAI EMBARCAR.
A senhora gorda com um grande saco de lixo cheio, pousado ao seu lado, e um monte de sacolas na mão não vai embarcar no próximo trem porque está tentando achar algum papelzinho na carteria, mas fica parada bem no meio do caminho atrapalhando o povo que quer entrar.
ANTES DE ENTRAR NO TREM, DEIXE AS PESSOAS SAÍREM.
E as tribos se confrontam: os de fora querem entrar e os de dentro querem sair ao mesmo tempo. Ninguém cede, ninguém entra, ninguém sai.
CUIDADO COM O VÃO ENTRE O TREM E A PLATAFORMA
A moça com uma bota de doze centímetros de plataforma entala o pé. Gritaria, pára tudo, puxa... Saiu!
SE VOCÊ NÃO DESCER, DEIXE A PORTA LIVRE
E o rapaz se encosta entre a porta e primeiro banco como se fosse o homem invisível. Só ele acha que não está na porta. Leva um pisão, quase esmagam seu pé 44. Pudera!
ASSENTO ESPECIALEMTE RESERVADO PARA:
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
GESTANTES
PESSOAS COM CRIANÇAS DE COLO
IDOSOS
Em um assento especialmente reservado está um jovem alto e forte fingindo que está dormindo, com Ipod no último volume. Em um assento especialmente reservado, e duplo, um casal se beija loucamente.
CARREGUE SUA MOCHILA NA PARTE DA FRENTE DO CORPO PARA NÃO ATRAPALHAR OS OUTROS PASSAGEIROS
O jovem caramujo, que leva sua casa nas costas, se vira abruptamente e quae deurruba uma senhora que vai descer na proxima estação.
EVITE ACIDENTES NA ESCADA ROLANTE
Um menino desce a escada que sobe e o irmão sobe na escada que desce. Gritam feito loucos. A mãe não fala nada.
MANTENHA A DIREITA
DEIXE O LADO ESQUERDO LIVRE PARA QUEM ESTÁ COM PRESSA
O homem bem vestido sobe a escada rolante do lado esquerdo e nem percebe que bloqueia a passagem dos que tem pressa porque está dizendo palavrões ao celular. Parece que é assunto de trabalho.
O metrô está poluído com tantos avisos e ninguém lê. tenho vontade de colocar um colete luminoso eficar explicando para as pessoas. Depois, acho que não valeria a pena.
ENTÃO DÊ PASSAGEM PARA QUEM VAI EMBARCAR.
A senhora gorda com um grande saco de lixo cheio, pousado ao seu lado, e um monte de sacolas na mão não vai embarcar no próximo trem porque está tentando achar algum papelzinho na carteria, mas fica parada bem no meio do caminho atrapalhando o povo que quer entrar.
ANTES DE ENTRAR NO TREM, DEIXE AS PESSOAS SAÍREM.
E as tribos se confrontam: os de fora querem entrar e os de dentro querem sair ao mesmo tempo. Ninguém cede, ninguém entra, ninguém sai.
CUIDADO COM O VÃO ENTRE O TREM E A PLATAFORMA
A moça com uma bota de doze centímetros de plataforma entala o pé. Gritaria, pára tudo, puxa... Saiu!
SE VOCÊ NÃO DESCER, DEIXE A PORTA LIVRE
E o rapaz se encosta entre a porta e primeiro banco como se fosse o homem invisível. Só ele acha que não está na porta. Leva um pisão, quase esmagam seu pé 44. Pudera!
ASSENTO ESPECIALEMTE RESERVADO PARA:
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
GESTANTES
PESSOAS COM CRIANÇAS DE COLO
IDOSOS
Em um assento especialmente reservado está um jovem alto e forte fingindo que está dormindo, com Ipod no último volume. Em um assento especialmente reservado, e duplo, um casal se beija loucamente.
CARREGUE SUA MOCHILA NA PARTE DA FRENTE DO CORPO PARA NÃO ATRAPALHAR OS OUTROS PASSAGEIROS
O jovem caramujo, que leva sua casa nas costas, se vira abruptamente e quae deurruba uma senhora que vai descer na proxima estação.
EVITE ACIDENTES NA ESCADA ROLANTE
Um menino desce a escada que sobe e o irmão sobe na escada que desce. Gritam feito loucos. A mãe não fala nada.
MANTENHA A DIREITA
DEIXE O LADO ESQUERDO LIVRE PARA QUEM ESTÁ COM PRESSA
O homem bem vestido sobe a escada rolante do lado esquerdo e nem percebe que bloqueia a passagem dos que tem pressa porque está dizendo palavrões ao celular. Parece que é assunto de trabalho.
O metrô está poluído com tantos avisos e ninguém lê. tenho vontade de colocar um colete luminoso eficar explicando para as pessoas. Depois, acho que não valeria a pena.
Mulher Mutilada
Olhou-se no espelho do banheiro com as duas mãos aparando os seios. Erguendo-os um pouco e avaliando as formas redondas como se fossem duas frutas maduras, achou que ainda estavam pequenos e caídos. – Semana que vem, - pensou. Ficou de perfil contraindo os glúteos, depois relaxou o abdome inclinado os quadris para frente. Nem dava para ver a cicatriz. Levantou os cabelos bem no alto da cabeça e achou-se bela. Belíssima! Todos os dias, após duas horas de exercícios com seu personal, sentia-se assim, como se ainda tivesse trinta anos. Era terça-feira, dia de ira ao tinturista retocar a raiz e depois fazer hidratação.
Depois do chuveiro, iniciou o ritual dos quatro cremes: primeiro o dos pés, depois o das pernas e dos braços, a seguir o da barriga e seios e, por fim, pescoço e rosto. Uma camada de filtro solar 50, brilho labial, nuvem de perfume.
Andou nua até o closet, escolheu lingerie de seda combinando com a roupa de griffe. Vestiu sapatos italianos ( só usava sapatos italianos) e pegou uma bolsa, qualquer uma, desde que custasse, no mínimo, o preço de um carro velho.
Saiu com o celular entre a orelha e o ombro, chaves na mão. Entrou no carro, jogou a bolsa no banco de trás, trancou as portas blindadas e ligou o ar condicionado. Tomaria um suco com adoçante no cabeleireiro, depois iria ao psiquiatra.
Sentada em frente do homem grisalho vomitava frases feitas, cruzava e descruzava as pernas, desenhava amplos círculos no ar com os braços longos e finos. Depois de cinqüenta minutos o homem grisalho perguntou:
- Vai querer continuar com a mesma dose de Prozac?
Depois do chuveiro, iniciou o ritual dos quatro cremes: primeiro o dos pés, depois o das pernas e dos braços, a seguir o da barriga e seios e, por fim, pescoço e rosto. Uma camada de filtro solar 50, brilho labial, nuvem de perfume.
Andou nua até o closet, escolheu lingerie de seda combinando com a roupa de griffe. Vestiu sapatos italianos ( só usava sapatos italianos) e pegou uma bolsa, qualquer uma, desde que custasse, no mínimo, o preço de um carro velho.
Saiu com o celular entre a orelha e o ombro, chaves na mão. Entrou no carro, jogou a bolsa no banco de trás, trancou as portas blindadas e ligou o ar condicionado. Tomaria um suco com adoçante no cabeleireiro, depois iria ao psiquiatra.
Sentada em frente do homem grisalho vomitava frases feitas, cruzava e descruzava as pernas, desenhava amplos círculos no ar com os braços longos e finos. Depois de cinqüenta minutos o homem grisalho perguntou:
- Vai querer continuar com a mesma dose de Prozac?
19/05/2009
Lirios
BASEADO NO CONTO DE ADRIANA FALCÃO
Ali, deitada, divagou:
se fosse eu,
Teria escolhido lírios.
Morrera de repente. Fora um ataque fulminante do coração, era o que diziam os parentes em volta do caixão, enfeitado com rosas cor de rosa. Os cabelos cacheados e abundantes emolduravam o rosto. Sua pele fina estava transparente na testa e mal cobria os vasos azulados. Os lábios ressecados e entreabertos davam a impressão de que a bela mulher sorria, como se não soubesse que tinha morrido. As mãos sobre o peito seguravam um terço de cristal. As pessoas estavam chocadas, não choravam, não faziam comentários e nem rezavam, apenas velavam o corpo da defunta, em total silêncio.
No meio da manhã, chegou o marido segurando a filhinha de cinco anos pelas mãos e as pessoas ficaram chocadas:
- Pobrezinha! Não deviam ter trazido essa criança, podeficar traumatizada.
– Elas sempre ficam traumatizadas. Eu também fiquei, e já era moça feita! - disse a tia avó, lembrando de sua mãe falecida havia mais de quarenta anos.
- Ela quis vir, disse o pai. – Queria entender o que acontece quando as pessoas morrem e eu achei melhor ela vir, ver a mãe e se despedir.
Segurando a menina no colo, o pai tentava explicar, com carinho, os mistérios da vida e da morte. Difícil para ele, mas a menina entendeu. Olhava para a mãe com os olhos bem arregalados, se atinha aos detalhes, olhava para o pai e não dizia nada. Pediu para descer; o pai a colocou no chão e ela saiu correndo para o corredor, entrando, a seguir, na sala ao lado, onde havia outro velório. Ficou parada na entrada, observando e logo voltou para perto do pai.
A hora do enterro se aproximava, as pessoas iam chegando sem saber o que dizer, nem como agir; cumprimentavam o pai, faziam um carinho na menina agarrada às pernas dele, chegavam perto do caixão e faziam o sinal da cruz.
Lá fora, um movimento: o carro funerário havia chegado e dois funcionários de roupa caqui entraram com um papel na mão. Pegaram a tampa do caixão que estava encostada na parede e foi então que a menina disse:
- Vão levar a mamãe? Eu nunca mais vou ver ela? Quero ver de novo, quero dar tchau para a mamãe, posso? Me segura no colo papai, quero ver.
O pai a ergueu e a abraçou com força. A menina jogou um beijo e deu adeus com a mãozinha. Enquanto atarraxavam os parafusos ela disse:
- A mamãe me disse que gostava de lírios.
Ali, deitada, divagou:
se fosse eu,
Teria escolhido lírios.
Morrera de repente. Fora um ataque fulminante do coração, era o que diziam os parentes em volta do caixão, enfeitado com rosas cor de rosa. Os cabelos cacheados e abundantes emolduravam o rosto. Sua pele fina estava transparente na testa e mal cobria os vasos azulados. Os lábios ressecados e entreabertos davam a impressão de que a bela mulher sorria, como se não soubesse que tinha morrido. As mãos sobre o peito seguravam um terço de cristal. As pessoas estavam chocadas, não choravam, não faziam comentários e nem rezavam, apenas velavam o corpo da defunta, em total silêncio.
No meio da manhã, chegou o marido segurando a filhinha de cinco anos pelas mãos e as pessoas ficaram chocadas:
- Pobrezinha! Não deviam ter trazido essa criança, podeficar traumatizada.
– Elas sempre ficam traumatizadas. Eu também fiquei, e já era moça feita! - disse a tia avó, lembrando de sua mãe falecida havia mais de quarenta anos.
- Ela quis vir, disse o pai. – Queria entender o que acontece quando as pessoas morrem e eu achei melhor ela vir, ver a mãe e se despedir.
Segurando a menina no colo, o pai tentava explicar, com carinho, os mistérios da vida e da morte. Difícil para ele, mas a menina entendeu. Olhava para a mãe com os olhos bem arregalados, se atinha aos detalhes, olhava para o pai e não dizia nada. Pediu para descer; o pai a colocou no chão e ela saiu correndo para o corredor, entrando, a seguir, na sala ao lado, onde havia outro velório. Ficou parada na entrada, observando e logo voltou para perto do pai.
A hora do enterro se aproximava, as pessoas iam chegando sem saber o que dizer, nem como agir; cumprimentavam o pai, faziam um carinho na menina agarrada às pernas dele, chegavam perto do caixão e faziam o sinal da cruz.
Lá fora, um movimento: o carro funerário havia chegado e dois funcionários de roupa caqui entraram com um papel na mão. Pegaram a tampa do caixão que estava encostada na parede e foi então que a menina disse:
- Vão levar a mamãe? Eu nunca mais vou ver ela? Quero ver de novo, quero dar tchau para a mamãe, posso? Me segura no colo papai, quero ver.
O pai a ergueu e a abraçou com força. A menina jogou um beijo e deu adeus com a mãozinha. Enquanto atarraxavam os parafusos ela disse:
- A mamãe me disse que gostava de lírios.
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